Papel do negro no futebol brasileiro

Like and share

Não é segredo para ninguém que o futebol já faz parte do cotidiano na vida de muitos brasileiros. Ir aos estádios ou reunir os amigos em um dia de domingo já é praticamente considerado uma tradição. Apesar do clima descontraído que geralmente está ligado a esse esporte, nem sempre tudo são flores. Xingamentos, gritaria e até mesmo agressões são fatos que acontecem constantemente durante os jogos, e que de forma negligente, nem sempre recebem a devida atenção e/ou punição nos casos em que o limite é ultrapassado.

Apesar do Brasil ser conhecido como “o país do futebol”, na realidade o esporte surgiu em 1863 na Inglaterra. Aqui, só foi chegar em meados de 1894, quando estudantes brancos de classe alta voltavam do Reino Unido com bolas e chuteiras na mão. Devido a herança colonial e escravista presente na história do país, o futebol acabou absorvendo, diretamente e indiretamente, esse pensamento preconceituoso.

Entretanto, foi apenas em 1904 que o negro passou a fazer parte do futebol brasileiro. Nesse ano, o time carioca Vasco da Gama elegeu um presidente negro, Cândido José de Araújo, que entrou para a história ao mudar essa tradição do futebol, adotando medidas que contribuíram decisivamente para a inclusão desses atletas excluídos e os demais brasileiros que não pertenciam à elite. Mesmo assim, alguns jogadores negros entravam em campo maquiados com pó-de-arroz, que ao longo da partida, ia escorrendo com o suor. Foi o que aconteceu com Carlos Alberto, atleta do Fluminense.

Posteriormente, a torcida então passou a gritar “pó-de-arroz”, que até hoje é um lema conhecido entre os tricolores.
Apenas com a profissionalização do futebol em 1930 que os jogadores passaram a ser avaliados e contratados de acordo com a capacidade técnica, deixando a cor da pele dos atletas um pouco de lado. Com isso, o futebol passou a definitivamente integrar os negros que eram excluídos, abrindo espaço para o surgimento dos grandes ídolos presente na história do futebol brasileiro.

Entretanto, apesar desse significativo passo em direção a uma igualdade racial, ainda há muito para ser mudado no futebol brasileiro. Para um negro que é pobre, com poucas oportunidades na vida, esse esporte acaba se tornando um caminho importante em busca de uma ascensão social. Não é preciso fazer uma pesquisa profunda para saber que a maioria dos jogadores brasileiros que são negros tiveram uma infância humilde.

Neymar Jr, por exemplo, nascido no interior de São Paulo, chegou a dividir com sua família um cômodo na casa da avó na periferia da cidade e hoje, está na lista dos jogadores mais caros do mundo. Com isso, percebe-se que mesmo sem o devido incentivo do governo, o futebol passou a ter um papel mais do que entreter os telespectadores, e sim social. Se tornou uma forma de manter as crianças e adolescentes na escola, para que assim fiquem longe das ruas e das drogas, alimentando o desejo e o sonho de se tornarem um grande jogador de futebol.

Infelizmente, o que ainda é comum encontrar nos dias de hoje no futebol é o forte racismo que os jogadores negros sofrem. É só um goleiro não agarrar a bola ou um atacante errar um gol, que incidentes de discriminação social aparecem. Jogar banana, imitar macacos ou outras ofensas preconceituosas ainda são comuns não só nos estádios como também nas redes sociais.

Mesmo quando as filmagens da torcida ou o print de postagens maldosas na internet chegam às autoridades, em muito dos casos, nada além de uma multa acontece. Além disso, existe uma presença restrita de negros fora do campo, nos cargos de treinadores ou nas direções dos principais clubes do Brasil. As funções mais elevadas continuam à cargo de uma elite branca.

Botafogo x Internacional, pelo Campeonato Brasileiro no estadio Maracana. 27 de abril de 2014, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Foto: Vitor Silva / SSPress.

O racismo ainda é muito presente na sociedade brasileira, e não seria diferente encontrar casos desse tipo nos esportes. Porém, se por um lado a discriminação é menos velada do que antigamente, por outro ocupa um espaço gigantesco na mídia. Graças a esse avanço, hoje o elenco da seleção brasileira é majoritariamente de negros. Nada além do talento e perseverança do atleta deveria ser levada em conta tanto dentro como fora do campo. É importante denunciar e lutar contra o preconceito em todas as esferas do país.


By: Fernanda Chaves, Jornalista e Correspondente Internacional do UK No Ar
Facebook Fernanda Chaves


Like and share