Eu, drag – A nova geração de drag queens no Brasil

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Drag queens Una, Arda Nefasta, Fúria, AIIA, Camel, Gargântua e Maria Madalena. Foto: I Hate Flash

Lindas, empoderadas, confiantes. Quem vê dragqueens performando nos palcos do Rio de Janeiro não imagina os obstáculos que esse tipo de arte teve que enfrentar até ser reconhecido e respeitado pela sociedade.

A origem do termo “drag” data do século XIX e significa “Dressed Resembling A Girl”, ou “vestido como uma mulher”. Naquela época, os homens que ousassem sair na rua vestidos do sexo oposto corriam o risco de serem presos em flagrante e acusados de diversos crimes, entre ele e a sodomia.

Imagens de arquivo, Foto retirada da internet

Dois séculos depois, a excentricidade dessa arte ganhou espaço na mídia brasileira nos últimos meses com o sucesso de Pabllo Vittar, cantor maranhense que emplacou vários hits nas paradas do país inteiro, como “K.O.”, “Vai Passar Mal” e “Sua Cara”, parceria com a cantora Anitta.

Ao se tornar a primeira drag brasileira a atingir grande sucesso internacional, Pabllo tem uma grande responsabilidade em mãos, a linha de frente de todo um movimento que está ganhando força e representatividade em um país de maioria religiosa, onde o conservadorismo recrimina manifestações artísticas do tipo.

Pabllo Vittar na capa da Paper, famosa revista americana

Diogo Pontes, ou Co Kendrah em drag, é estudante de Medicina e conta como o sucesso de uma drag queen no Brasil mudou a mentalidade da sua família: “Quando contei para a minha mãe que me montava, ela perguntou se eu era travesti e eu disse que não, explicando a diferença pra ela. Um dia que a Pabllo apareceu no Faustão, o meu irmão disse ‘ela é travesti’ e minha mãe o corrigiu dizendo ‘não, ela é drag queen, é diferente”.

Diogo Pontes, a Co Kendrah. Foto: @larissavph

Para Diogo, a visibilidade da arte drag trazida por Vittar foi uma oportunidade natural para uma discussão acontecer no meio de pessoas que não sabem muito sobre o assunto, conseguindo romper algumas barreiras desse tabu.

No entanto, esse é só o início e ainda há muito pela frente: “Ela é mais dentro da caixa da questão binária de feminino e masculino, fica mais didático e fácil para as pessoas absorverem para depois entrarem no mundo drag e se depararem com drag barbada, drag king, mulher fazendo drag…”.

História

Dois ingleses, Frederick Park e Ernest Boulton,foram os primeiros a comparecer a um julgamento vestidos como o sexo oposto, adotando os nomes Fanny e Stella em 1871. O caso teve tanta repercussão nas ruas de Londres que a polícia iniciou uma investigação minuciosa sobre os dois. Sem provas, ambos foram absolvidos das acusações.

Frederick Park e Ernest Boulton

Por volta de 1880, muitos homens já haviam aderido ao fenômeno drag e, como não existiam leis específicas contra essa manifestação artística naquela época, eles passaram a ser aceitos no ambiente teatral e eram até mais respeitados do que as atrizes mulheres. Foi no início do século XX, no entanto, que o drag ganhou notoriedade no teatro de variedades, com ícones como Julian Eltinge, nos Estados Unidos, e Florin, na Europa.

Durante a década de 20, quase quarenta anos depois, a arte drag passou a estabelecer um laço maior com a comunidade LGBT devido às “drag balls”, festas nas quais a maioria dos homens ia vestido de mulher. Esse período de explosão da performance drag ficou conhecido como “Pansy Craze” e estava em voga nas maiores metrópoles do mundo, como Nova York, Londres, Berlim e Paris.

Mesmo com todo o glamour da época, a fama chegava para poucos. A maioria das drag queens ainda encontrava dificuldades para se encaixar na sociedade, visto que o cross-dressing, ou vestir-se como o sexo oposto, era considerado uma ofensa grave que inclusive acarretou na prisão de alguns artistas do ramo. No meio dessa “caça às bruxas”, a homossexualidade crescia como tabu.

Foi nos anos 90 que o jogo virou: RuPaul Charles, artista e ator americano, ganhou espaço nas paradas do mundo inteiro ao lançar o primeiro single estrelado por uma drag queen, “Supermodel of the World”. O sucesso foi tanto que ele foi contratado por uma famosa empresa de cosméticos para estampar a campanha, tornando-se, então, a primeira modelo em drag.

RuPaul em um show ao vivo, nos anos 90

Desde os anos 90 até os dias de hoje, RuPaul tem sido essencial para a representividade LGBT na mídia: estrelou o próprio talk-show, foi porta-voz de diversas campanhas contra a homofobia e conscientização, lançou mais de dez álbuns e participou de inúmeros programas de TV.

Além disso, tem o seu próprio reality show que, todo ano, convida doze drag queens para competir em desafios de costura, dança, interpretação e canto visando um prêmio de cem mil dólares, além de um tour fazendo shows ao redor do mundo.

Cena drag carioca

A arte drag tem ganhado cada vez mais espaço no Rio de Janeiro. Tudo começou no famoso Teatro Rival, onde acontece, todo mês, a festa “Rival Rebolado”. Idealizada por Alê Youssef, Leandra Leal e LuisLobianco, o evento tem como objetivo trazer o gênero “teatro de revista” de volta para os palcos cariocas. Esse gênero, muito popular no ramo das artes cênicas no Brasil e em Portugal até meados do século XX, tem como características marcantes a sátira social e política e o apelo à sensualidade.  

Rival Rebolado, no Teatro Rival no Rio de Janeiro

Fabiano de Freitas, diretor do espetáculo, ressalta a importância do Teatro Rival para o movimento drag não só do Rio, mas do Brasil inteiro: “Foi o primeiro teatro que abriu espaço para as artistas transformistas no Brasil, que hoje são as chamadas ‘drags’. A gente faz, nesse espetáculo, um concurso de drag queens e algumas montações”.

Outro palco para os apreciadores da arte drag é a boate Fosfobox, em Copacabana. Lá acontece, todo mês, a festa MORTA, idealizada e produzida por Jeff Oliveira. A proposta da festa é oferecer um espaço para drag queensiniciantes e incentivá-las a apresentar-se sem competirem entre si, mas sim como um jeito de se expressarem e serem aclamadas pelo público.

“O circuito ficou  muito grande, a gente só tinha ou drags muito famosas, ou muito novas, e essas novas não tinham espaço para se apresentarem”, ele conta ao explicar como surgiu a ideia desse evento. “Eu tinha vários amigos que queriam fazer drag mas diziam ‘não tem lugar para eu me apresentar, não tem lugar para eu me montar’. A gente quer que a pessoa bote a sua arte ‘para fora’ sem medo de parecer melhor ou pior do que ninguém”.

Resistência          

Uma das precursoras do movimento drag no Brasil foi a cantora e atriz Jane di Castro, nascida com o nome de Luiz de Castro. Nascida no subúrbio do Rio de Janeiro, ela conta que sempre sofreu repressão por ser diferente. “Já fui expulsa de coral, apanhava na escola… Não me aceitavam”, conta. Essa arte foi, inclusive, uma porta de entrada para que ela não só aceitasse a sua sexualidade, mas se assumisse para a sociedade como uma mulher trans.

Igor Esperança, a Camel. Foto: @pemaxx

Não é só para Jane que drag é uma forma de aceitação e expressão de sexualidade. É também o caso de Igor Esperança, estudante de Administração de 24 anos. Ele incorpora Camel, seu alter-ego drag, e dá a sua perspectiva: “Drag é a forma que eu achei de usar toda a minha criatividade e botar para fora tudo que eu sinto através da arte. Eu posso ser quem ou o que eu quiser e isso é ótimo!”. Seus amigos, segundo ele, o apoiaram desde o início, mas sua família ainda não sabe.

Alex Lopes, a AIIA. Foto:@eu_alla

O namorado de Igor, o estudante de Arquitetura Alex Lopes, também faz drag, usando o nome de AIIA. Quando contou às pessoas próximas a ele o que fazia, ficou surpreso com a reação positiva: “A reação da minha família e amigos foi bem legal. Ninguém me falou palavras que me botassem para baixo ou me desmotivassem”. Aos 22 anos, Alex reconhece que é exceção. Na maioria dos casos a reação ainda é negativa, mas ele trata a relutância de muitos brasileiros para aceitar esse tipo de arte com otimismo. “Ser drag é mostrar que os padrões definidos pela sociedade vão ser quebrados ali, com um delineador bem bafo”, conta, entre risos.

No entanto, nem tudo é glitter. Ser drag queen assumida em um país de maioria religiosa é um desafio por si só. Para muitas queens, assumir esse tipo de arte põe em risco não só as suas relações pessoais e familiares, mas também a sua integridade física. “O maior desafio de ser drag acho que é a LGBT fobia e o medo de ficar na rua ‘montada’”, Igor desabafa. O seu namorado, ou AIIA, concorda. “O meu maior desafio é sair andando na rua, já ouvi tanta coisa que para mim é horrível”, relembra.

Juliana Rosa, a Maria Madalena.

No auge do movimento drag no Rio de Janeiro, não só os homens participam dessa arte. Juliana Rosa, atriz e cineasta de 22 anos, é um exemplo. Sempre muito ligada ao teatro, encontrou na arte drag uma forma de se dedicar à sua carreira: “Para mim as performances dragsão como uma peça, só que eu tenho a liberdade de escrever, dirigir e atuar”. Além disso, ao “se montar” como uma personagem, Juliana encontrou um refúgio para problemas que vinha enfrentando e aprendeu a aceitar a sua personalidade vista por muitos como “exagerada”.

Para ela, ser drag não é exclusivo a homens, e sim um lugar para militar não só pela comunidade LGBT, mas também pelos direitos das mulheres no Brasil. “Me ajuda a dizer o que eu preciso dizer e fazer piada com essa sociedade careta e machista”, conta. A sua família reagiu com receio e questionou sua orientação sexual, mas Juliana encontrou em seus familiares todo o apoio necessário depois do “baque inicial”. Natural de Volta Redonda, ela tenta ignorar os boatos que circulam na sua cidade natal. “Rolam boatos lá que eu virei homem. Eles não sabem que mulher pode fazer drag. Para eles não existe ligação nenhuma com a arte”.

Juliana ressalta que mulheres que fazem dragtambém sofrem preconceito, pelo fato de muitas pessoas relacionarem esse tipo de arte a meramente um “homem se vestindo de mulher”. Ela contesta esse estereótipo e conclui, resumindo a essência do drag: “Alguns não entendem que drag deve ser um lugar de união de minorias (em direitos) e não de exclusão”.

Por trás de uma peruca, roupas chamativas e muita maquiagem, há seres humanos que nunca se encaixaram nos padrões impostos pela sociedade e encontraram, ao brincar com os estereótipos de gênero, sua própria autoestima. O drag hoje em dia não é mais somente umaperformance teatral, mas sim um estilo de vida que constitui um dos alicerces da resistência LGBT no Brasil e no mundo.

Paula Félix, Jornalista e correspondente internacional do UK No Ar
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