Descaso

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Manifestação no Rio de Janeiro em protesto contra o descaso do Governo pelas instituições culturais (Foto: Carol Montagna)

O que vão fazer, por exemplo, com os outros museus que estão caindo aos pedaços também? Vão esperar pegar fogo, desmoronar? A história, a cultura, a ciência e o trabalho das pessoas nestes locais não são importantes? Como a ganância e o individualismo conseguem se superar em tudo? Acho que o avanço tecnológico trouxe consequências negativas para o viver em sociedade.

Cada vez mais as pessoas vivem nos seus próprios mundos, nos seus próprios quadrados, pensando nos seus próprios bens e o coletivo deixou de ser a questão principal de uma nação. Entretanto, ela é de longe a única culpada por isso. Quando educação, saúde e patrimônio histórico nacional foram deixados em segundo plano, para termos olhos apenas para a economia e o cenário do Brasil no exterior, abrimos as portas para o caos. Quando um museu entra em chamas e as pessoas assistem na televisão ou na internet o espetáculo por pouco mais de cinco minutos, voltam às suas rotinas como se nada tivesse acontecido.

Manifestantes exigindo uma resposta do Governo ao incêndio que destruiu duzentos anos de história. (Foto: Carol Montagna)

No entanto, acontece que a cultura e a história vem sendo apagadas há muito tempo e ninguém faz nada, porque “não tem o que fazer”. O povo foi acostumado a receber de cima como deveria agir; foi acostumado a se revoltar apenas nos casos de suas vidas privadas e concomitantemente coletivas fossem afetadas. Mas quando se vê um museu e outros tantos milhares de anos se apagando, algo tem que ser feito, não é possível.

Por que continuamos a dar apenas cinco minutos de importância ao coletivo? Por que continuamos a nos manifestar apenas por curtos períodos de tempo e depois vira “ah, é né? Já tem cinco meses (quase seis) da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes; já tem cinco anos desde junho de 2013, já tem dois anos do golpe e 50 anos de história do golpe militar”? Por que as odiosas palavras dos políticos corruptos perduram por tão pouco tempo nas redes e nas nossas consciências? Por que as coisas são engolidas e esquecidas numa velocidade imensurável se comparadas há anos? Por que a educação e a saúde nunca foram levadas a sério? Por que? Somente isso.

Milhares foram as ruas no Rio de Janeiro em protesto depois que o Museu Nacional foi completamente destruído por um incêndio. (Foto: Carol Montagna)

Tem gente no Rio que não sabe nem da existência deste museu. Gente rica e gente pobre. Os últimos, a justificativa é dada, grande parte por conta da falta de estrutura do poder público e do descaso, que parece não se importar com esta parcela da sociedade. Só o que importa é o dinheiro, é o cenário econômico, é o Brasil no exterior! Mas que coisa! Estou farta disso, como milhões. Mas a raiva, a incompreensão, a “falta de saber” nos destrói. O “não saber” começa pelo coletivo e assim é levado pela massa. É normal “não saber”.

E paulatinamente a quantidade de “não saber” aumenta. Até que chega a um ponto que o “não saber” atinge cada um de nós internamente. É neste momento que a ficha cai. Chegamos ao fundo do poço. Começamos a perceber que a falta de estrutura em todos os âmbitos que regem um país é muito maior do que a mensurada. Começamos a perceber que nada é feito e que agora é tarde para fazer. Começamos a perceber que nos acostumamos a seguir o rebanho de acordo com as ordens do pastor. Começamos a perceber que cédulas são mais importantes do que células. Começamos a perceber, para vocês se situarem, que “o homem é o lobo do próprio homem”. Começamos a perceber, para vocês se situarem, que Judas traiu Jesus e armou um plano danado pra isso. Começamos a perceber que
tudo na vida é regrado para medir poder.

O Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é a mais antiga instituição científica do Brasil e, até meados de 2018, figurou como um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas. (Foto: Carol Montagna)

Enquanto não nos afeta de fato, basta uma cena na TV para voltar tudo ao normal um tempo (curto) depois. Mas quando as chamas crescem de forma monstruosa, parece que tudo faz sentido. A sociedade, a saúde, a educação, a má qualidade dos transportes públicos, a má distribuição de renda, o trabalho escravo, a fome, a miséria, a crise, as greves, a falta de compaixão, o “não ser social”, a história, explodem nossas mentes como se fossem os últimos momentos de nossas vidas.

Aquele filminho que dizem passar em nossas mentes começa a rodar. E nos damos conta que nos deixamos levar feito marionetes. E que o Pinóquio sempre volta para o seu dono depois de uma aventura esplendorosa e desafiante. “Que Brasil você quer pro futuro?” Esta frase tomou as nossas vidas nos últimos meses pelo “grande irmão” que existe na casa de poucos milhões de brasileiros (a maioria concentra-se nas regiões sul, sudeste e centro-oeste do país). Quem está por fora do número tem acesso limitado e o conhece. É assim que recebe informação.

Maior museu de história natural do Brasil, o local tinha um acervo de 20 milhões de itens, como fósseis, múmias, peças indígenas e livros raros. (Foto: Carol Montagna)

Entretanto, este número está acostumado a ficar na margem, pouco importa o que há, porque a sua vida já é uma miséria e ninguém faz nada pra mudar. Não me refiro aos programas sociais independentes e locais que existem, inclusive é deles que precisamos em massa. Quando se preocupar com o social e o próximo se tornou, para muitos propagadores de discurso de ódio, coisa de “comunista”? Eu, sinceramente, não compreendo.

A ignorância e o poder crescem paralelamente em mesmo nível. Quantos receberam a notícia que o Museu Nacional estava em chamas na hora em seus telefones e quantos só viram no dia seguinte? Quantos agora se importam com isso neste momento e quantos se importarão cada vez mais? Estamos entregues e vamos ficar assim mesmo? Basta um pouco de manifestação, alguns meses ou até mesmo dias de greve e depois tudo passa? Fechamos os olhos? As eleições estão vindo aí e qual é o seu candidato? Tem algum? Só vejo os mesmos discursos sendo reforçados, os meus ódios sendo exaltados, a mesma ignorância sendo aclamada. O que é isso?! Quase duas décadas do novo século e é isso que temos?

Vista aérea do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruído após incêndio de domingo (2) (Foto: Thiago Ribeiro/AGIF/Estadão Conteúdo)

Centenas de anos foram apagados na mesma velocidade que as fake news se espalham na internet. Milhões de fatos históricos, científicos e sociais viraram cinzas. Milhares de trabalhos acadêmicos foram jogados fora. Centenas de trabalhos não existirão mais. O que acontecerá com as pessoas que ali trabalhavam? O que acontecerá com os trabalhos dos estudantes e profissionais? O que acontecerá com os registros, agora que viraram pó? O que vamos fazer? Cobrir com um tapete enorme? Virar a página? Seguir em frente sem ao menos incentivar melhorias na cultura e na preservação de lugares como o Museu Nacional? E a educação?

Uma geração inteira e outras que estão por vir não terão acesso ao que poucos tiveram. “Mas é quase gratuito”, dirão. Mas quem liga pra um “monte de velharia” quando não se dá valor à ela? Quem disse que não dá valor? O absurdo número de dois 2 milhões de crianças fora das escolas em todo o país; os cortes dos últimos governos ã cultura; “quando só 2 de 13 planos de governo para a Presidência citam preservação de museus”; quando só há um médico para cada 470 brasileiros, sendo que no Norte e Nordeste chega a quase um para cada mil; há 30 anos o SUS já tem 90 milhões de usuários, mas os gastos continuam em apenas US$ 400 por habitante/ano; quando somente 3,6% do orçamento do governo federal foi para a saúde este ano, o que mantém o percentual bem menor que a média mundial, de 11,7%, de acordo com a OMS; quando os dados apontam que “10,6% da população brasileira adulta (15,5 milhões de pessoas) já se sentiram discriminadas na rede
de saúde tanto pública quanto privada”, segundo dados do IBGE.

Vista aérea do Museu Nacional após incêndio (Foto: Reuters/Ricardo Moraes)

E a discriminação é sobretudo pela cor da pele. Quando os negros deixaram de ser escravos, o que foi feito para eles integrarem e viverem como cidadãos comuns na sociedade? Nada. Educação não foi oferecida, trabalho não foi oferecido. Ah, foi sim: trabalho manual, porque “era o que eles sabiam fazer”. Me poupe! Muitos foram vender bala, engraxar sapatos, cuidar de crianças e até mesmo trabalhar na fazenda dos antigos senhores de engenho, só que com “salário”. O preconceito continuou existindo e só se acentuou. Era mais cômodo manter as diferenças, porque não afetava em nada a vida dos brancos, não é mesmo? Não houve integração e sim interesse. E sim, vontade de dominação, vontade de poder, vontade de garantir o seu único e individual bem-estar.

E os anos foram passando, e a ganância foi aumentando, e mais um golpe veio. E mais outro, e mais outro, e mais outro. Um branco com maconha na mão vira até música! Um preto com um baseado completa o cenário atual: o encarceramento de jovens negros, vindo principalmente pela política de guerra às drogas, que levou o país a posição de terceira maior população carcerária no mundo, com mais de 700 mil presos, dos quais 40% são presos provisórios e muitos não julgados.

Um cartaz na mão de um dos manifestantes “Mesmo de luto, eu luto pela pesquisa no Brasil” (Foto: Carol Montagna)

O número de desemprego no Brasil assusta, não é? Assusta mais ainda quando quase 64% dele são negros ou pardos, ou seja, 8,3 milhões de pessoas. Eu desisti de escrever. O que adianta? Vai passar, não é mesmo? A vida vai voltar ao normal. Os números nas áreas mais importantes só crescem negativamente e o cenário continuará o mesmo, mesmo com o próximo presidente.

Afinal, não há um cenário muito diferente do que um possível extremista no poder ou um vulnerável aos urubus de Brasília. O Brasil que eu quero para o futuro não existe e eu temo que seja tarde demais para torná-lo real.


By: Carol Montagna, Jornalista e Correspondente Internacional do UK No Ar.
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