Brasileiras estão viajando sozinhas cada vez mais depois dos 30 anos

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O Ministério do Turismo, em pesquisa, apontou que 17,8% das brasileiras preferem viajar sozinhas.

No Brasil, onde a cultura espera que mulheres na casa dos 30 já tenham marido e família formada, viajar sozinha é um ato de coragem.
Um levantamento feito pela empresa de hospedagem Airbnb no ano passado revelou que o Brasil é o quinto país no ranking de mulheres viajantes. O Ministério do Turismo, em pesquisa, apontou que 17,8% das brasileiras preferem viajar sozinhas. Mesmo que esses números sejam promissores e mostrem que a mulher brasileira está se tornando cada vez mais independente, ainda existe um tabu que afirma que apenas mulheres na casa dos 20 anos são livres de responsabilidade e espontâneas o suficiente para viver uma aventura no exterior.

Nínive. “Eu queria respirar outros ares. Decidi pegar o dinheiro da rescisão para aplicar em uma viagem”

A paulista Nínive é um exemplo do contrário: 32 anos e formada em Física, trabalhou como professora em uma escola particular de São Paulo. Quando a empresa a demitiu devido à crise, junto a outros funcionários, Nínive enxergou essa situação como uma oportunidade. “Com o dinheiro da rescisão, eu tinha duas possibilidades: ou guardar o dinheiro e correr para procurar outro emprego, ou usar esse dinheiro para viver um pouco. Eu queria respirar outros ares. Decidi pegar o dinheiro da rescisão para aplicar em uma viagem”, conta.

A primeira viagem que ela fez foi ao lado de uma amiga, para estudar inglês em Malta durante um mês. Ela gostou tanto da experiência que, ao voltar para o Brasil, sua cabeça já estava feita para morar lá, mas ela hesitou: “Era muito mais fácil viver no exterior do que no Brasil. Mas aí eu li um livro da Chimamanda Adichie, o Americanah, e ela apontou para os perigos de ser um imigrante ilegal – aí eu desisti.”

A primeira viagem que Nínive fez foi ao lado de uma amiga, para estudar inglês em Malta durante um mês.

A falta de opção durou pouco. Nínive logo descobriu o intercâmbio voluntário: atráves da plataforma Worldpackers, ela encontrou uma oportunidade de trabalhar em um hostel em Liverpool, na Inglaterra, em troca de acomodação. De lá, foi para Londres e depois para a Alemanha. A experiência em outros países a trouxe diversas amizades, além de aperfeiçoar seu inglês.

 

Giuliana Feliciello. Giuliana deixou tudo para trás e foi fazer um curso em Florença, na Itália.

A vontade de se libertar é uma das maiores motivações para mulheres que buscam viajar sozinhas. É o caso também de Giuliana Feliciello, de 38 anos. Formada em Hotelaria, trabalhou como designer por dez anos. Ela planejava uma viagem à Europa com o marido e chegou a vender o carro para conseguir dinheiro. No fim das contas, o casal acabou se divorciando, mas a vontade de viajar ficou.

“Eu tinha vendido meu carro na época porque meu ex-marido tinha me prometido que a gente faria uma viagem para a Europa, então eu vendi o carro, tinha o dinheiro guardado, e a gente se separou. Aí comecei a procurar um curso ou alguma coisa para fazer para vir pra cá.” Giuliana deixou tudo para trás e foi fazer um curso em Florença, na Itália, país nativo de sua mãe. “Cheguei aqui, fiquei apaixonada pela cidade, fiz o curso, em trinta dias eu conheci muitas pessoas aqui, fiz amizade com italianos e não italianos. Voltei para São Paulo e fiquei desesperada porque queria voltar para cá de qualquer jeito.”

A decisão de mudar a rotina tão abruptamente, na casa dos 30, teve uma grande repercussão na família de Giuliana e de Nínive. “Meu pai ficou muito assustado porque eu trabalhava com ele, era o braço direito dele, mas eu tenho 38 anos então ele não podia me impedir”, relembra Giuliana. Nínive, por sua vez, tinha a intenção de ficar um ano viajando, mas a ideia assustou sua família. Ela decidiu, então, ficar seis meses na estrada: “Minha família respeitou a minha decisão, qualquer decisão que eu tomo eu tenho apoio deles. Se eu fosse ir para morar, aí seria mais difícil deles aceitarem”.

Foi através do Facebook que Giuliana conheceu uma amiga que a aconselhou a fazer um curso de guia de turismo

O choque de voltar ao Brasil serviu de impulso para que Giuliana se dedicasse a uma mudança definitiva. Pediu demissão do emprego, vendeu o apartamento e embarcou em um vôo de volta para a Itália, cheia de esperança. Ao contar sua história no novo país, era bombardeada com perguntas. “No começo todo mundo me perguntava: ‘mas o que você tá fazendo aqui sozinha? Você veio para cá por causa de um namorado?’ e eu falava ‘pelo contrário, eu vim para cá porque eu não quero ninguém por enquanto, eu quero focar na minha vida profissional’.

Nem tudo são flores. “Uma das coisas que eu enfrentei muito quando viajei sozinha foi o assédio. Foi bem forte, perguntavam de onde eu vinha, queriam me oferecer bebida. Brasileiros já me disseram, como sugestão para ficar lá, que eu deveria arrumar alguém para casar”, conta Nínive. Segundo ela, é um pensamento típico da cultura brasileira, que pensa que o casamento é o “caminho mais fácil” para se mudar para o exterior.

Não é só o machismo que é um obstáculo para mulheres viajantes. O ramo de restaurantes na Itália, no qual Giuliana estava particularmente interessada, não era promissor. Foi através do Facebook que ela conheceu uma amiga que a aconselhou a fazer um curso de guia de turismo. “Aí fiquei pensando, eu amo essa cidade, amo a cultura, amo a história, amo ir para museus, eu adoraria mostrar essa cidade para outras pessoas. Então foi isso, me deu uma luz, eu fui atrás de um curso e me formei agora e já tô aqui trabalhando.” Atualmente, essa é a sua nova carreira.

Nínive está de volta ao Brasil depois da sua temporada viajando, o que é sempre uma fase difícil. “A parte mais chata de voltar é ter que recomeçar. Vou distribuir currículos, arrumar um trabalho, talvez um mestrado. Eu não sei como vai ser minha vida profissional daqui para a frente, não sei se nessa crise vou conseguir juntar dinheiro para viajar para fora.” Ela tem esperanças de conseguir viajar de novo no ano que vem.

Tanto Nínive quanto Giuliana provaram não só para si mesmas, mas para quem ousou duvidar delas, que são capazes. Brasileiras acima de 30 anos estão desbravando o mundo, quebrando paradigmas e provando que não há idade para mudança e autoconhecimento.


By: Paula Felix, Jornalista e Correspondente Internacional do UK No Ar
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