116 anos da indústria fonográfica brasileira e o papel da mulher na música brasileira

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Em diversos gêneros musicais brasileiros, como bossa nova, samba, pagode e MPB, há composições que reforçam tanto a violência doméstica, quanto relações heteronormativas com o domínio masculino.

Os 116 anos da indústria fonográfica brasileira resultaram em canções que contribuíram para a reafirmação das delimitações de gênero e construção de uma imagem feminina objetificada e submissa. Embora a primeira música brasileira gravada seja de 1902, apenas nos últimos quarenta anos que o papel das mulheres tornou-se mais ativo no setor da música. Mesmo com a adoção de algumas medidas importantes para reduzir a desigualdade de gênero (como leis contra a violência doméstica e regras de apoio às mães trabalhadoras), ainda existem letras da música pop carregadas de sexismo.

Em diversos gêneros musicais brasileiros, como bossa nova, samba, pagode e MPB, há composições que reforçam tanto a violência doméstica, quanto relações heteronormativas com o domínio masculino.
De acordo com Weigding e Barbosa, no periódico MUDI, a música não é apenas entretenimento, mas também uma maneira de compartilhar ideias, influenciar aos ouvintes e mudar seus comportamentos. Isso poder ser observado aqui no Brasil, em que por muitas décadas as músicas mais famosas foram cheias de misoginia, defendendo a docilização feminina. Como se esperava que as mulheres fossem mães e esposas no século XX, as músicas descreviam-nas como uma espécie de propriedade masculina.

“Aí que saudades da Amélia, aquilo sim é que era mulher!” Ataulfo Alves e Mário Lago

Um exemplo clássico de letra que impactou o imaginário popular foi “Que Saudade da Amélia”, de Mário Lago e Ataulfo Alves (1942): “Às vezes passava fome ao meu lado/ E achava bonito não ter o que comer” (…) “Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era mulher de verdade”. A intenção de Mário Lago nesta canção não parece ser a de encorajar o machismo, pelo contrário. De acordo com Dutra Lima e Lima Sanchez, em artigo publicado no “Caderno Feminino”, as letras tinham o intuito de elogiar. Percebe-se, no entanto, que o resultado foi o reforço da crença de que a “mulher real” nunca deveria ter ambições, gastar dinheiro ou fazer qualquer reclamação. Era uma forma artística de apoiar a construção da imagem de uma mulher que era quase considerada um objeto, seguindo regras e permanecendo calada.

Foi apenas por volta de 1950 que as compositoras começaram a ganhar espaços. Como pontuado por Terezinha Mendonça, citado no livro “Finas flores: mulheres letrista na música brasileira”, foi apenas em 1945 que as mulheres puderam começar a participar da política, o que mostra que por um longo tempo elas não tiveram voz influente. Por essa razão, foi difícil – se não impossível – que os ouvintes tivessem uma variedade de discurso influenciando a construção de ideologias alternativas nas gerações passadas.

Além disso, mesmo podendo cantar as músicas, demorou para que elas pudessem ter autonomia para escolher as letras. Um exemplo é a música ‘Meu dono, meu rei’, composta por Cyro Monteiro e Dias da Cruz, em que Ângela Maria canta sobre sua afeição por “seu homem”, que é agressivo com ela. Como se as mulheres considerassem o tratamento violento como prova de amor, Ângela Maria canta: “Eu choro, mas não sou covarde/Pois sei que não arde/Pancada de amor.”

Carmen Miranda

Por causa de músicas como essa, compositores passavam aos ouvintes a ideia de que idealizações masculinas eram a realidade – apesar de falarem sobre questões das quais não tiveram vivência. Não havia espaço para as mulheres se defenderem e o ponto de vista masculino sobre relacionamentos tornava-se o coro de uma nação. Em 1932, até mesmo Carmen Miranda, que era mundialmente famosa e reconhecida no Brasil como progressista, cantou um samba chamado “Mulato de Qualidade”, que conta a paixão de uma mulher e o respeito por uma homem que além de ser destemido, ofereceria a ela muitas coisas, incluindo agressões físicas.

Além de construírem a imagem do “anjo do lar”, as canções contribuíram para a difusão da ideia de que a mulher era a única culpada pela destruição de um relacionamento heterossexual e por enfurecer o marido – justificando assim a violência doméstica. Uma música famosa no Carnaval de 1930, cantada alegremente pelos brasileiros, foi “Dá Nela” de Ary Barroso: “Esta mulher/ Há muito tempo me provoca/ Dá nela! Dá nela!”. Esse incentivo a violação da integridade da mulher é tão notável que apenas em 2009 a lei em relação ao abuso sexual no casamento foi revisada e passou a considerar como crime o estupro entre cônjuges.

Chiquinha Gonzaga

Com o passar dos anos, houve um aumento nos movimentos a favor da igualdade de gênero, desafiando as composições misóginas. Chiquinha Gonzaga foi pioneira na industria musical. Ela ganhou reconhecimento no começo do século XX, como pianista e maestrina. No entanto, após a ascensão dela a maioria das mulheres ainda tiveram que lutar por um espaço e para terem o talento reconhecido. Ivone Lara é um exemplo disso. A compositora carioca precisou esconder nas suas primeiras letras o fato de ser mulher, para assim conseguir a fama. Atualmente, o número de músicas com autoria feminina cresceu e um dos fatores apontados é o surgimento de recursos tecnológicos. As redes sociais facilitam o compartilhamento de diversos discursos, permitindo que a mulher se defenda de preconceitos e construa novas abordagens. Mais um ganho para o cenário da música brasileira foram cantoras como Rita Lee e Zélia Ducan, que abordam nas letras a defesa dos direitos da mulher.

Infelizmente, composições que fazem piadas sobre mulheres e as inferioriza ainda são frequentes na modernidade. Isso acontece porque o impacto de uma música não se limita a geração em que ela é escrita. Tanto “Dá nela” quanto “Mulato de Qualidade” ainda são conhecidas e até cantadas. Essas composições tornaram-se parte de um cultura brasileira e influenciam novos compositores que percebem que letras agressivas e discriminatórias não foram condenadas, mas sim aclamadas. Mc Brinquedo mostra esse ponto com o hit “Roça, roça”. Famosa entre o público jovem, a música passa mostra um cara que, mesmo recusado pela garota, diz que deve insistir roçando sua genital nela. O grupo “Vou pro Sereno” também parece seguir essa trajetória antiga quando canta que “Mulher foi feita para o tanque/ Homem para o botequim.” A desigualdade na industria musical ainda se faz presente, com maior espaço para os homens.Uma pesquisa feita pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) mostra que de 2005 até 2013, menos de um terço das músicas tocadas na rádio foram cantadas por mulheres.

São por esses motivos que se percebe que apesar da lógica usada por tanto tempo nas músicas brasileiras ter se enfraquecido, ela resiste. Esses conceitos impregnados no pensamento coletivo causaram danos e ainda impactam negativamente. Por isso, a necessidade de se chamar atenção para tamanho problema no cenário musical. A esperança está na trajetória da mulher brasileira. Elas já demonstraram que a partir do engajamento, das reivindicações sociais e produções intelectuais, padrões de comportamento e pensamentos podem ser aprimorados. Desistir não parece ser uma opção para as musicistas. A história é de luta pelas conquistas. Como canta Zélia Ducan:” Os imorais se chocam por nós/ Por nosso brilho/Nosso estilo/ Nossos lençóis/ Mas um dia, eu sei/A casa cai/E então/ A moral da história/ Vai estar sempre na glória/De fazermos o que nos satisfaz”;


By: Ana Carolina Francisco, Jornalista e Correspondente Internacional do UK No Ar
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